O corpo como cuidado de si
fevereiro 28th, 2010
No curso que ministrou no dia 20 de janeiro de 1982, Michel Foucault já mostrava a transformação pela qual o “cuidado de si” passou desde Alcebíades, de Platão, até os dois primeiros séculos de nossa era, caracterizada por ele como “uma verdadeira idade de ouro na história do cuidado de si” (Foucault, 2001, p. 79). Neste curso, o pesquisador tinha demonstrava como que a questão do cuidado no pensamento grego era uma prática discursiva para a formação dos jovens. Essa prática, segundo Foucault, influenciou as culturas que se seguiram, principalmente a cultura cristã, que teria uma moral sexual.
Na cultura grega, o que está em jogo é o regime da aphrodisia, que pode ser compreendido como uma experiência histórica dos prazeres, que se diferencia radicalmente da experiência cristã da carne e também da experiência moderna da sexualidade e, no que concerne à noção de corpo, traz uma outra substância ética da moral antiga. O regime grego da aphrodisia apontava para uma prática que teria a justa medida como ideal corporal, fazendo justa ao pensamento Aristotélico.
O cuidado de si é uma espécie de aguilhão que vê ser implantado na carne dos homens, cravando na sua existência, e constitui um principio de agitação, um principio de movimento, um princípio de permanente inquietação no curso da existência. (Foucault, 2002, p. 11).
É por isso que Foucault destaca a relação entre a subjetividade e verdade presente na prática do cuidado de si. O autor demonstra que existem dois preceitos: o epimeleia heautou, que seria o cuidado de si propriamente dito, implicando o cuidado de si mesmo, uma preocupação consigo mesmo. Podemos extrair daí a noção de corporeidade, que abarcaria a noção de corpo de si mesmo e o cuidado deste corpo consigo.
A epimeleia heautou, ou cura sui, ou seja, essa arte de viver sob o cuidado de si, é demonstrada por Sêneca como a conformação da arte da existência; é a relação do corpo com a alma:
o homem que vela por seu corpo e por sua alma (hominus corpus animunque curantis) para construir por meio de ambos a trama de sua felicidade, encontra-se num estado perfeito e no auge de seus desejos, do momento em que sua alma está sem agitação e seu corpo sem sofrimento. (Sêneca, apud Foucault, 2002, p. 51).
Para Foucault, há uma aproximação da medicina marcada, primeiramente, pelo reagrupamento conceitual entre a medicina e a filosofia, no que a paixão evolui, como uma doença, até o vício; em seguida, pela prática de si, concebida como uma operação médica, havendo três definições para therapeuein:
Therapeuein quer dizer, evidentemente, fazer um ato médico cuja função é curar, cuidar, mas, therapeuein, também, é atividade do servidor que obedece às ordens e que serve a seu mestre; enfim, therapeuein é render culto. Ora, therapeuein heauton há de querer dizer, ao mesmo tempo, cuidar-se, ser de si mesmo seu próprio servidor, e render um culto a si mesmo. (Foucault, 2002, p. 95).
Para o imperador romano Marco Aurélio, esse culto consiste em “guardar-se puro de paixão”. É nesse sentido que se deve extrair algum entendimento sobre o corpo na tradição greco-romana. Se o corpo faz parte de uma ética do cuidado de si, influenciando a mente a partir de uma therapeuein, a noção de corporeidade traz uma ética ligada a uma terapêutica do corpo com a mente. O corpo torna-se, também, objeto de preocupação, e ocupar-se de sua alma é também ocupar-se de seu corpo. Tanto no “ocupar-se” como no “preocupar-se”, o fim deve ser a alma. Esse princípio está por trás, por exemplo, da concepção da escola de filosofia como um “dispensário da alma”, o que esclarece a declaração do filósofo estoico Epiteto: “Não se deve, quando se sai da escola de filosofia, ter tido prazer, mas ter sofrido” (cf. Foucault, 2002, p. 96). Foucault esclarece que, nesse período da filosofia, o corpo não tinha uma relação privilegiada com a medicina, sendo apenas um começo ao qual se seguiria uma intrincação psíquica e corporal que, mais tarde, seria o centro do cuidado de si. Nesse sentido, o corpo, nesta abordagem da Grécia Antiga, vem acompanhado de uma regulação dos prazeres.
Quando utilizamos o corpo, segundo Foucault, nos servimos do corpo para realizar algo. Pois bem, existem as mãos e aqueles que se servem das mãos para manipular alguma coisa, quando olhamos alguma coisa, o que fazemos? Servimo-nos dos olhos, isto é há um elemento que se serve do corpo. mas que elemento é esse que se serve do corpo? Evidentemente não é o próprio corpo: o corpo não pode servir-se de si mesmo, diremos que quem se serve do corpo é o homem, o homem composto da alma e do corpo? Certamente não. Pois, mesmo a titulo de simples componente, mesmo supondo que ele esteja com a alma , o corpo não pode ser, nem a titulo de coadjuvante o que se serve do corpo, das partes do corpo, dos órgãos do corpo e, por conseqüência, dos instrumentos e, finalmente se servirá da linguagem? Pois bem, é e só pode ser a alma. Portanto o sujeito de todas essas ações corporais, instrumentos, e da linguagem é a alma: a alma que se serve do corpo. Chegamos então à alma.
Pedro Castilho
28/02/2010
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