Por artes da existência deve-se entender “práticas refletidas e voluntárias através das quais os homens não somente se fixam regras de conduta, como também procuram se transformar, modificar-se em seu ser singular e fazer de sua vida uma obra que seja portadora de valores estéticos e responda a certos critérios de estilo” (Foucault, 1984 [1998]: 15).

Frente a essa definição, pode-se perguntar o que Foucault entenderia pelo “ser singular” do sujeito, ou seja, a substância ética que vai ser submetida aos jogos de verdade e poder que constituem a moral sob a qual vive. Em outras palavras: quando pensamos em nos modificar, sempre pensamos em modificar uma parte de nós. Essa parte variou imensamente ao longo do tempo: o domínio do desejo carnal; a força física para o combate ou as práticas de resistência; a dietética (como, quando e por que comemos); a erótica (como, quando e por que amamos); a economia (como, quando e por que trabalhamos)… Essas diversas “substâncias” são alvos de vários exercícios, de práticas de ascese. A psicanálise, o direito e a literatura têm tudo a ver com essa história.

A psicanálise surgiu no final século XIX, mas pode ser vista como uma “tecnologia de si” com muitas semelhanças e diferenças das tecnologias terapêuticas existentes ao longo da história do Ocidente. O que gostaria de apontar aqui é a semelhança do projeto de Foucault e o de Freud. Para ambos, a meu ver, não há uma substância ética universal a ser manipulada e também não há um modelo moral universal a ser constituído. Aproximar a existência da arte me parece parte do arsenal teórico de Freud. Quando ele cria a noção de pulsão para fazer frente à noção de instinto, acredito que ele esteja querendo apontar também para esse ponto: não temos uma regra fixa e determinada sobre o que devemos ser ou como devemos nos comportar. Isso é construído historicamente e libidinalmente.

O direito também tem a ver com a arte da existência. Afinal, os jogos de poder sob os quais vivemos são perpassados pelas instituições legais. Basta imaginar nas muitas formas de vida que o direito pode impedir ou promover através de leis e regulamentos. Alguns exemplos: o casamento homoerótico; a emancipação das mulheres no mercado de trabalho; a biotecnologia e as mudanças corporais… Quantas mudanças podemos fazer em nossas vidas a partir de leis que regulem essas práticas? Quantas são proibidas atualmente, penalizadas? É importante observar que o Direito não é um apanhado de leis inertes. É um saber verdadeiramente etopoético, isto é, inventor de ethos, de modos de vida: na medida em que impede e promove certos movimentos subjetivos.

Finalmente, é importante trazer a literatura para a discussão. Pensar em arte da existência sem pensar no poder das ficções é deixar de lado o principal. Através do ficcional - Freud vislumbra isso em “Escritores Criativos e Devaneio” - podemos inventar novas realidades. Reside aí, talvez, o poder político da literatura: imaginar novos mundos e novas formas de existência. Acredito que aproximar nossa existência de uma obra de arte é lembrar que essas práticas de construção subjetiva não têm fim. Como diz Foucault: a teleologia moral varia muitíssimo de tempo pra tempo, e está sempre imersa em outros tantos fins morais quantos podemos imaginar. Mais uma vez, gosto de pensar numa proximidade com Freud quando ele fala, por exemplo, que no início de todo sonho há um “umbigo”, núcleo duro, resistente a toda interpretação “finalista” e que nos obriga sempre a novas narrativas, nos obriga a sermos constamentemente intérpretes de nós mesmos.

É preciso articular, então, essas três disciplinas - psicanálise, direito e literatura - em torno desse tema - as artes da existência. Acredito que só através desse olhar interdisciplinar é possível tornar mais visível o que diversos jogos de poder tentam escamotear separando, dividindo, disciplinando. Nesse sentido, não podemos manter essas disciplinas, ao longo do nosso Congresso, isoladas. O direito aprende com a literatura que há mais interpretações possíveis, a psicanálise ensina o que há de inconsciente na lei e no desejo de novas existências, o direito impõe limites, a literatura mostra o matiz… e assim, infinitamente, espero…

Pra terminar mais essa chamada ao trabalho, quero lembrar uma passagem antológica de Foucault. Trata-se de um convite poderoso ao pensar diferente. Quero fazer dessa ideia a chamada para esse nosso II CONPDL:

“De que valeria a obstinação do saber se ele assegurasse apenas a aquisição dos conhecimentos e não, de certa maneira, e tanto quanto possível, o descaminho daquele que conhece? Existem momentos na vida onde a questão de saber se se pode pensar diferentemente do que se pensa, e perceber diferentemente do que se vê, é indispensável para continuar a olhar ou a refletir. Talvez me digam que esses jogos consigo mesmo têm que permanecer nos bastidores; e que no máximo eles fazem parte desses trabalhos de preparação que desaparecem por si sós a partir do momento em que produzem seus efeitos. Mas o que é filosofar hoje em dia — quero dizer, a atividade filosófica — se não consistir em tentar saber de que maneira e até onde seria possível pensar diferentemente em vez de legitimar o que já se sabe” (Foucault, 1984 [1998]:13).

Fonte: Foucault, Michel. História da Sexualidade Vol. 2 (O uso dos prazeres). Trad. Maria Thereza da Costa Albuquerque. 8ª ed. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1998 [1984].

Fábio Belo

BH, 11/02/10

2 Responses to “Artes da existência e substância ética”

  1. Rodrigo Pardini Guedes Says:

    Fábio, é sempre muito bom poder apreciar as articulações que você faz. Muito interessante como você costura psicanálise, direito e literatura. Cada uma delas mostrando, a nós, o que elas nos oferecem. São junções possíveis. Assim como, talvez, seja possível a união destas com outros saberes. Como todos os saberes partem de um único lugar, que é o homem, a tarefa é sempre tangenciar, ou até mesmo atravessar aquilo que já foi dito. Seja numa contestação ou em defesa.
    Queria salientar somente um aspecto sobre seu texto no que diz respeito à psicanálise. Sigo você até o momento que você evoca a pulsão que faz contraponto ao instinto. A pulsão nos põe de fora da regra. Ela nos deixa à deriva e assim muitos podem escolher até a arte como norte para o buraco que a falta do instinto nos faz. Contudo, penso que essa pulsão é a dita sexual, que é, dentre outras características, organizadora das relações sociais. Mas, falta a pulsão de morte. A primeira pulsão. A que nos põe de novo no inanimado. Senti falta de ler sobre ela em seu texto, e talvez por você ter optado por unir as 3 disciplinas, a pulsão de morte não tenha espaço mesmo.
    A pulsão de morte vem tirar o sujeito desse furor criativo que parece que você empregou no seu texto. Nela existe somente a repetição, o conforto, o mesmo. Assim, quando alguém diz que quer mudar, a leitura que faço é que “não ponha seu dedo nisto, porque isto eu não quero mudar”. No máximo, um acomodar ou “acomudar”.
    Uma frase sua citada no texto: “Acredito que aproximar nossa existência de uma obra de arte é lembrar que essas práticas de construção subjetiva não têm fim”. Se tomamos a pulsão de morte e sua relação com a pulsão sexual, nós só vemos que existe um fim sim. Que as construções são infintas, mas sempre atreladas a um ponto nodal, talvez umbilical e impossível de ser dito.
    Rodrigo Pardini Guedes.

  2. admin Says:

    Oi, Rodrigo!

    Excelente receber uma mensagem sua. Tenho saudades daquela nossa turma de história da psicanálise. Foi uma experiência muito boa.

    Bom, você sabe que sigo Laplanche quanto ao conceito de pulsão. Só há uma pulsão: a pulsão sexual. A pulsão de morte é, na verdade, pulsão sexual de morte. Trata-se de pensar num tipo de funcionamento diferente entre um momento e outro. Citando diretamente o Laplanche: “(…) essas duas teses, a da permanência da pulsão de morte e a da inconciliabilidade do desejo sexual, são uma só, sendo a pulsão de morte, em última análise, a expressão teórica dos aspectos irredutíveis, irrecuperáveis, não-dialetizáveis, da pulsão sexual.” (Problemática III, p. 144).

    Então, ao ponto: quando proponho uma junção interdisciplinar, claro, a primazia é de Eros… mas, veja bem: imediatamente Tanatos bota as manguinhas de fora, pois o que o diálogo interdisciplinar faz aparecer também é a impossibilidade de resolver tudo, de pensar tudo… é colocar ruído na conversa antes uniforme… isso é pulsão sexual de morte… também. Fazer esse movimento de pêndulo talvez seja importante: um pouco pró-ligação, pró-ego, pró-laço social… mas também um pouco pró-desligamento, pró-ruptura, pró-ruído, pró-diferença… O lance importante é não deixar o pêndulo parar… nem lá (dogmatismo), nem cá (relativismo).

    Quanto ao fim, ah, o fim… nisso, acho que ainda não compreendi bem Lacan. Ainda estou com Freud: não tem fim, justamente por ter no começo um umbigo sem nome. Minha aposta aqui é no provisório, na contingência e não num suposto ponto nodal, ou ponto de “solda” (pra usar uma metáfora do próprio Freud)… mas isso é pano pra mais manga…

    Ah, em tempo: vê se participa do congresso. Espalha a notícia. Lá vai ter começo, meio e fim. (Afinal, algumas coisas têm que ter!). E vai ser bom ver a turma por lá.

    Duas presenças MUITO importantes já confirmadas: Márcio Fonseca (articula muito bem direito e Foucault) e Benilton Bezerra (participou da minha banca de mestrado, está trabalhando com biotecnologia e novas formas de vida).

    Abraço ao Rodrigo e a todos do grupo!

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