1) A Psicanálise é fundamentalmente um método terapêutico. Não há dúvida de que, ao transformar parte do que é inconsciente em consciente, ela transforma as pessoas. Se considerarmos a neurose como um estilo de vida, então é possível pensar no desenvolvimento de outro estilo, outra forma de se relacionar consigo mesmo e com os outros. Pensemos, a partir de Escher, nesse trabalho infinito do desenho de si mesmo.

Mãos que se desenham, de Escher
1.1) Pode-se pensar, a partir da psicanálise, que esse desenho de si mesmo, nunca se faz sozinho, evidentemente, mas a metáfora de Escher me parece importante para mostrar que quando nos inventamos fazemos isso a partir de um ethos. Nunca é um processo, de fato, solitário. A estética da existência, pode-se dizer, é sempre solidária - tomando todos os cuidados com as muitas conotações desse termo, quero apenas apontar: é sempre algo que passa pelo outro.
2) Mas, é preciso estar atento ao desejo de “ser outro”, tão comum nas neuroses. Nossos romances familiares estão repletos de narcisismo. Uma família melhor, um pai mais amigo, uma mãe mais compreensiva: esses desejos implicam também no suposto ego que daí adviria. Isso está geralmente implícito: “se eu tivesse tido um pai mais compreensivo… hoje eu seria…”. Parte fundamental de uma análise é exatamente esclarecer os limites dessa “mudança” desejada, desse ser outro que aparece como ideal imaginário.
3) Na Conferência XXVII, sobre a transferência, Freud diz alguma coisa que merece muitíssima atenção: “Der geheilte Nervöse ist wirklich ein anderer Mensch geworden, im Grunde ist er aber natürlich derselbe geblieben, d. h. er ist so geworden, wie er bestenfalls unter den günstigsten Bedingungen hätte werden können.” (GW, XI, 452). Traduzindo: “o neurótico curado se transformou realmente em um outro homem, mas, no fundo, naturalmente, ele permaneceu ele mesmo, isto é, ele assim se tornou o que poderia ter se tornado no melhor dos casos, sob as melhores condições.” Freud conclui: “Aber das ist sehr viel.” Ou seja: “Mas, isso é muita coisa.” O que, qualquer um que já se submeteu a uma análise, há de concordar…
3.1) Mas, o que Freud quer dizer com isso? Como assim, o sujeito curado é aquele que se transformou… naquilo que ele seria “no melhor dos casos”… então, voltamos ao romance familiar? Mas, então, a Psicanálise usaria o método per via di levare, isto é, aquele método que vai “retirando” a pedra para que se revele a escultura escondida atrás do bloco de mármore? Mas, não seria melhor encará-la pelo método per via de porre, como na pintura, onde colocamos os elementos onde desejamos? Será mesmo que o sujeito “no seu melhor” está lá, guardado, sob os escombros de sua neurose? Não seria melhor pensar a Psicanálise como também uma técnica de subjetivação, de invenção de si mesmo, de uma prática ético-estética-existencial?
3.2) Mas, é preciso admitir que a frase de Freud tem algo de revelador: ele permaneceu o mesmo… “im Grunde”, no fundo… No fundamento, há algo, de fato, que não muda. Isso me parece… fundamental: por mais consciente que tenha se tornado o sujeito, por mais brilhantemente que saiba interpretar seus sonhos, por mais esperto que fique diante de seus atos falhos… ali, onde ele resplandece, paira, sempre, invisível, o que não cessa de se dar a ver, o inconsciente. Aí, nesse lugar, o sujeito permanece o mesmo. No fundo sem beira do inconsciente, no profundo do seu desejo, no indomável do pulsional, ele não muda e não há nada que a Psicanálise possa fazer quanto a isso… a não ser dotá-lo de um pouco mais de consciência – o sagaz contentamento, a gaia ciência – diante d’isso.

Céu e Água, Escher (1938)
3.3) Mais uma vez, Escher. Pensemos nesse desenho Gestalt, “Céu e Água I”, de 1938. O sujeito se transformou, mas há algo que aparece, que o trabalho analítico - o trabalho sobre si mesmo - faz aparecer que já estava lá. Sabemos do risco que Freud corre aqui: um “naturalismo”, uma “natureza humana”… Mas, quero insistir no paradoxo: quando falamos da pulsão como esse fundo, estamos falando de algo puramente contingencial, que pode ter qualquer destino. É justamente isso que faz a exigência de trabalho analítico necessária.
Fábio Belo, 18/04/2010
