No curso Hermenêutica do Sujeito, na aula de três de março de 1982, Foucault analisa a prática da leitura e da escrita na época helenística. Segundo Foucault, havia então um princípio ético que orientava tanto a leitura quanto a escrita. Assim explica Foucault o efeito que se esperava da leitura: “não a compreensão do que o autor queria dizer, mas a constituição para si de um equipamento de proposições verdadeiras, que seja efetivamente seu” (FOUCAULT, 2006, p.431). Ou seja, o que importava era se apropriar dos pensamentos (lógoi), de modo a incorporar princípios de comportamento e a provocar uma mudança da existência. A leitura é vista assim como uma prática eticamente orientada, na qual os pensamentos são apropriados e organizados através de diversos exercícios: ler em voz alta, reler, anotar, reler as anotações, meditar, etc., de maneira a efetivamente incorporar os pensamentos e torná-los seus.

No contexto helenístico, o autor e a obra não têm a “aura” que terão na modernidade, não possuem a autoridade que lhes será concedida pelo renascimento e pelo romantismo, eles não constrangem o leitor e nem exercem qualquer privilégio hermenêutico. Não cabe ao criador delimitar sua criação na forma de uma obra bem definida e circunscrita, pois compete ao leitor operar essa junção livremente. Geralmente os textos não eram assinados e pouco se sabia da fonte ou da autenticidade do que se lia. Podemos dizer que, nesse contexto, a função de controle e delimitação do discurso não é exercida pelo autor, posto que é o leitor quem, em sua apropriação, impõe uma determinada organização e utilização ao que lê ou escuta. A técnica seletiva de leitura sugerida aos alunos na época helenística, que os incentivava a ler algumas passagens de poucos autores e obras, ilustra bem esse ponto. Vemos assim o quão longe estamos do esforço crítico moderno, que nos convida a uma abordagem do conjunto de uma obra de modo a decifrar a intenção do autor e o sentido por ele conferido aos seus escritos. Temos assim uma relação muito diversa com a leitura e a escrita, em comparação com o leitor e o escritor modernos. Não cabe ao criador impor um sentido último, um percurso linear a ser seguido e um limite e unidade à sua obra. E quanto ao leitor, ao invés da obrigação de respeitar a intenção do autor e a integridade e o conjunto de sua obra, cabe a ele se apropriar do discurso, conformando-o livremente e fazendo-o seu à sua maneira. As questões hermenêuticas modernas acerca da intenção do autor e os problemas acerca da autenticidade das obras antigas é algo completamente alheio ao modo de circulação e organização do discurso no helenismo.

O leitor da época helenística não realiza verdadeiramente um comentário, no sentido de uma duplicação do discurso, e nem uma exegese, entendida como a busca pela origem ou pelo sentido último. Como ressalta Foucault em sua aula: “a leitura recolhe oraciones, logói (discursos, elementos de discursos); é preciso disto fazer um corpus. É a escrita que vai constituir e assegurar este corpus” (FOUCAULT, 2006, p.431). Portanto, o leitor não assume uma posição passiva diante da obra, que traz consigo um sentido último dado. Pelo contrário, é ele que exerce ativamente a função de controle e organização do discurso. Foucault enfatiza como a leitura não era algo fácil, mas constituía um complexo exercício. Segundo Foucault, a palavra utilizada para se referir à leitura, anagignóskein, “significa precisamente reconhecer, reconhecer nesta miscelânea de signos que são tão difíceis de repartir, de distribuir como convém e, conseqüentemente, de compreender” (FOUCAULT, 2006, p.433). Podemos ver assim como a tarefa de domesticar a selvageria e periculosidade do discurso é exercida pelo leitor no momento da meditação (meléte, meditatio) e não pela figura do autor.

Os hypomnémata (anotações de leitura, suporte de lembranças) ilustram bem essa outra prática de leitura, escrita e releitura. Foucault comenta em sua aula a publicação que Arrianus fez de seus hypomnémata, escritos enquanto escutava os colóquios de Epicteto. Arrianus ressalta que se trata de uma versão com suas próprias palavras. Como comenta Foucault em sua aula: “Publicando os hypomnémata que fez para si, Arrianus atribui-se como tarefa, portanto, restituir o que as outras publicações não souberam fazer: diánoia, o pensamento, o conteúdo de pensamento que era, pois, o de Epicteto em seus colóquios” (FOUCAULT, 2006, p.441). Como fica evidente, o objetivo não é preservar a autoria e a autoridade de Epicteto, mas antes se apropriar de uma verdade pronunciada. Em uma entrevista concedida a Dreyfus e Rabinow em abril de 1983, Foucault esclarece que, mesmo sendo a cultura antiga marcada pelo valor da tradição e da autoridade (como a de Epicteto), o objetivo dos hypomnémata é “fazer da recordação de um logos fragmentário, transmitido pelo ensino, a escuta ou a leitura, um meio para estabelecer uma relação consigo mesmo a mais adequada e perfeita possível” (DREYFUS & RABINOW, 1984, p.341, tradução nossa).

Embora não devamos esperar lições da história, e muito menos profecias, as considerações feitas por Foucault acerca da época helenística nos fazem pensar sobre nossas próprias práticas de leitura e escrita e sobre o regime de circulação e apropriação que impomos aos discursos nos dias atuais. Os problemas hermenêuticos não devem ser pensados em abstrato, independentemente das práticas, técnicas e instituições no interior das quais o sentido se constrói. Somos então levados a pensar sobre nossa ordem do discurso, sobre os princípios que dirigem nosso olhar e constituem a condição de possibilidade de nossa compreensão.

Referências bibliográficas:

FOUCAULT, Michel. A hermenêutica do sujeito: curso no Collège de France (1981-1982). Tradução de Márcio A. da Fonseca e Salma Tannus Muchail. São Paulo: Martins Fontes, 2006.

KREMER-MARIETTI, Angèle. Introdução ao pensamento de Michel Foucault. Tradução de César Augusto Chaves Fernandes. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1977.

Marco Antônio Sousa Alves

BH, 05/02/10

O tema do II Congresso Nacional de Psicanálise, Direito e Literatura (II CONPDL) será Ética e Estética da Existência.

A obra de Michel Foucault servirá de mote aos autores convidados para elaboração de temas em torno da relação que o sujeito estabelece consigo mesmo, isto é, com a ética e a estética da existência. A obra do referido autor, especialmente sua produção posterior a 1976, isto é, a partir da História da Sexualidade, nos auxilia a pensar a questão da ética contemporânea pelo menos de duas maneiras. A primeira tem quatro aspectos: (1) O que é a substância ética alvo dos cuidados e dos saberes relevantes ao julgamento ético? (2) Como se dão os modos de sujeição às regras e obrigações morais? (3) Quais são as atividades auto-transformadoras ou trabalhos éticos que o sujeito exerce sobre si mesmo para se transformar num sujeito ético? (4) Qual é a finalidade, o telos, o modo de ser ao qual o indivíduo aspira se comportando eticamente? Já a segunda forma de se conceber a ética, Foucault sugere pensá-la como interseção entre a história da subjetividade e a análise das formas de governamentalidade.[1]

Pensar a ética por esses dois caminhos ajuda a aproximá-la da estética. É nesse sentido que Foucault propõe a noção de artes da existência que são “práticas refletidas e voluntárias através das quais os homens não somente se fixam regras de conduta, como também procuram se transformar, modificar-se em seu ser singular e fazer de sua vida uma obra que seja portadora de certos valores estéticos e responda a certos critérios de estilo.”[2]

Psicanálise, Direito e Literatura podem se articular para nos auxiliar não só a tornar visíveis as artes da existência contemporâneas mas também contribuir para pensar em novas formas de vida possíveis. Além disso, essa articulação transdisciplinar também tem função crítica de apontar para o recalcamento e a violência dirigidos à formas de vida outras, não desejadas ou excluídas.

A noção de estética da existência coloca questões fundamentais para o direito, pois ela faz pensar numa “maneira de viver em que o valor moral não provém da conformidade com um código de comportamentos, nem com um trabalho de purificação, mas de certos princípios gerais no uso dos prazeres, na distribuição que se faz deles, nos limites que se observa, na hierarquia que se respeita.”[3] Nossa moral, portanto, está muito além – e aquém – das leis que regem nossas condutas. Estabelecer as relações entre esses dois campos ainda é uma tarefa que se impõe.

Também no que tange à psicanálise, a estética da existência interessa sobremaneira. Pois, já no curso A Hermenêutica do Sujeito, Foucault lança uma provocação: a psicanálise é uma espiritualidade.[4] Por espiritualidade, Foucault entende as práticas que postulam que, tal como ele é, o sujeito não é capaz de verdade, mas que a verdade é capaz de transfigurar e salvar o sujeito. Além disso, esses saberes articulam de tal forma o ser do sujeito e a verdade que o sujeito só tem acesso à sua verdade se transformando. O privilégio aqui é do cuidado de si de forma generalizada e não apenas do conhecimento de si. De fato, trata-se de um desafio instigante, ainda pouco estudado no Brasil, avançar a hipótese da psicanálise no campo do cuidado de si.

Finalmente, a literatura é não apenas uma das tecnologias através das quais o sujeito se constitui numa obra de arte, mas também é um dos lugares no mundo contemporâneo a que temos acesso a modelos de vida. A escrita de si-mesmo é apenas uma forma de se pensar essa articulação. A princípio, o II CONPDL convida a todos a pensar a ética e a estética da existência sob as muitas perspectivas possíveis a partir dessa visada transdisciplinar entre a psicanálise, o direito e a literatura. A seguir, sugerimos apenas alguns temas para os autores que desejam escrever trabalhos para o Congresso:

a) Direito e Parrésia: teorias da argumentação.

b) Psicanálise, Direito e Literatura: cinismo e verdade.

c) Cuidado de si e a emancipação política.

d) O teatro grego e a parrésia.

e)      A verdade e a parrésia na Psicanálise.


[1] Cf. Davidson, Arnold I. Ethics as ascetics: Foucault, the history of ethics, and ancient thought. In The Cambridge Companion to Foucault. 2nd. Ed. Cambridge: Cambridge University Press, 2005: 123-143.

[2] Foucault, Michel. História da Sexualidade 2: o uso dos prazeres. Trad. Ma. Thereza da Costa Albuquerque. 8.ed. Rio de Janeiro: Graal, 1984: 15.

[3] Castro, Edgardo. Vocabulário de Foucault: um percurso pelos seus temas, conceitos e autores. Trad. Ingrid Müller Xavier. Belo Horizonte: Autêntica, 2009: 150-1.

[4] Foucault, Michel. L’Herméneutique du sujet: cours au Collège de France (1981-1982). Paris: Gallimard, 2001: 31.

Vídeos das aulas

setembro 11th, 2009

Pessoal, os vídeos das aulas já estão disponíveis no sítio da Faculdade de Direito Milton Campos:

http://www.mcampos.br/SERVICOS/palestrasfabiobelo.html

Basta clicar na aula que você quer ver, na coluna da esquerda. O cronograma também está no link acima.

Continuo convidando a todos a irem lá na FDMC para assistir aos cursos e participar da discussão que está sendo excelente… Pelo andar da carruagem, o II CONPDL vai ser excelente!

fb

Ao longo do segundo semestre de 2009, vamos nos preparar para II CONPDL. O tema será parrésia e a estética da existência, ou seja, a obra do “último Foucault”. A fim de preparar a comunidade acadêmica da Faculdade de Direito Milton Campos, propus a colegas professores que ministrassem cada um uma aula, na ordem, do curso  A Hermenêutica do Sujeito. Cada professor ficou responsável também por fazer um resumo dessa aula. Abaixo seguem os links para esses resumos:

Aula 1 - Hermenêutica do Sujeito - Aula dada por Foucault em 06/01/1982 - Resumo feito pelo Professor Fábio Belo

Aula 2 - Hermenêutica do Sujeito - Aula dada por Foucault em 13/01/1982 - Resumo feito pelo Professor Marco Antônio Sousa

Aula 3 - Hermenêutica do Sujeito - Aula dada por Foucault em 20/01/1982 - Resumo feito pela Professora Sarug Dagir Ribeiro

Aula 4 - Hermenêutica do Sujeito - Aula dada por Foucault em 27/01/1982 - Resumo feito pelo Professor David Fonseca

Aula 5 - Hermenêutica do Sujeito - Aula dada por Foucault em 03/03/1982 - Resumo feito pelo Professor Guaracy Araújo

Aula 6 - Hermenêutica do Sujeito - Aula dada por Foucault em 17/03/1982 - Resumo feito pelo Professor Gustavo Cerqueira Guimarães

Aula 7 - Hermenêutica do Sujeito - Aula dada por Foucault em 24/03/1982 - Resumo feito pelo Professor Fábio Belo

Olá, pessoal!

A programação para o II Congresso Nacional de Psicanálise, Direito e Literatua já começou.

O II CONPDL vai acontecer em abril de 2010 - a data exata e a programação ficam prontas no início do ano. O tema desse próximo Congresso será o “último Foucault”, ou seja, o trabalho de Michel Foucault voltado para a estética da existência. Como meu projeto de pesquisa na Faculdade de Direito Milton Campos é sobre a parrésia, um dos livros principais que escolhi para preparar os alunos para o ano que vem é o curso A Hermenêutica do Sujeito.

Diante disso, propus a vários colegas professores que ministrasse uma das aulas desse curso de Foucault. O cronograma - que se estende por todo o segundo semestre de 2009 - ficou assim: Cronograma.

No próximo post, vou colocando os resumos das aulas já dadas.

Fábio Belo

Anais online!

maio 17th, 2009

Atenção, participantes e autores do I CONPDL!

Os Anais do Congresso já estão disponíveis online: conpdl.com.br/conpdl_anais.pdf

Lembrem-se: o arquivo “pesa” quase 6 mb, então, demora um pouco para carregar.

Pretendemos manter o site e os Anais do Congresso no ar por um tempo indeterminado. Portanto, se quiserem, podem citar o site no Curriculo Lattes, no campo apropriado de publicação de trabalho.

Boa leitura a todos!

A Comissão Organizadora

Mesa de Conferências

maio 17th, 2009

 

Cyro Marcos da Silva, Fábio Belo, Jacinto Coutinho

Cyro Marcos da Silva, Fábio Belo, Jacinto Coutinho

Mesa de encerramento

maio 17th, 2009

 

Fábio Belo, Célio Garcia, Jeanine Nicolazzi

Fábio Belo, Célio Garcia, Jeanine Nicolazzi

Mais mesas

maio 17th, 2009

 

 

Adalberto Arcelo, Bernardo Maranhão

Adalberto Arcelo, Bernardo Maranhão

 

 

Cristiane Barreto, Pedro Castilho, Cristina Vilas Boas

Cristiane Barreto, Pedro Castilho, Cristina Vilas Boas

 

 

 

 

Pedro Groppo, Fábio Belo, Alessandra Bustamante, Cláudia Neves

Pedro Groppo, Fábio Belo, Alessandra Bustamante, Cláudia Neves

 

 

Marília Arreguy, Pedro Castilho, Izabel Massara

Marília Arreguy, Pedro Castilho, Izabel Massara

 

 

 

 

Domingos da Costa, Liliane Camargos, Arthur Ferreira

Domingos da Costa, Liliane Camargos, Arthur Ferreira

 

Douglas Alves Jr., Guilherme Rocha, Romina Gomes

Douglas Alves Jr., Guilherme Rocha, Romina Gomes

Público

maio 17th, 2009

Algumas fotos do público que compareceu em peso ao I CONPDL.

 

Público

Público

 

Público

Público

 

Congressistas

Público