Local e data

abril 15th, 2010

O III Congresso de Psicanálise, Direito e Literatura ocorrerá nos auditórios da Faculdade de Direito Milton Campos, em Nova Lima – MG, nos dias 05 e 06 de maio de 2011.

PARA TODOS OS PARTICIPANTES INSCRITOS HAVERÁ CERTIFICADO DE PARTICIPAÇÃO (20 HORAS COMPLEMENTARES).

Alunos Milton Campos: para ganhar 10 horas complementares por dia basta assistir dois turnos do evento por dia (manhã e tarde / tarde e noite / manhã e noite). Para ganhas as 20 horas, basta assistir a dois turnos por dia. Convidamos, claro, a participar de todo o Congresso. Confiram a programação!

O tema do Congresso nesse ano será o texto de Jean Laplanche, “Résponsabilité et Réponse”. Esse texto, assim como sua obra, está disponível em pdf, aqui.

(O texto está na pasta Seduction).

Para quem desejar ler um um resumo crítico desse texto, em português, clique aqui.

Inscrições abertas!

Chamada de trabalhos!

Anais do III CONPDL

outubro 18th, 2011

É com prazer e alegria que anunciamos a publicação online dos Anais do III CONPDL.

http://conpdl.com.br/conpdl3_anais.pdf

Acessem, divulguem, compartilhem.

Obrigado a todos que participaram – como ouvintes, autores, participantes.

Parabéns aos autores pelos excelentes textos.

Todo abuso é sexual

maio 2nd, 2011

Pessoal, acabei a primeira versão do texto que vou apresentar no III CONPDL. É um texto para debater o interessantíssimo artigo de Maria Teresa de Melo Carvalho, a ser apresentado antes do meu.

Segue, então, o link para meu texto. Clique AQUI.

Aproveito o ensejo para uma observação importante: as portas da Milton Campos estão abertas a todos aqueles que queiram apenas assistir ao Congresso. O pagamento para o mesmo – além de ajudar os organizadores a custear o evento – dá direito ao certificado e aos anais (para os que enviaram textos e que foram aprovados). Portanto, convidem seus colegas, avisem seus amigos. O importante é discutir os textos e pensar esse tema do deslocamento da responsabilidade para resposta. Clique na aba “Programação” acima e escolha as mesas às quais deseja assistir. Participem!

O aborto. Do ponto de vista religioso, há uma só resposta, uma só forma de se responsabilizar pelo aborto: não fazê-lo. A religião, entendam, é o modelo de toda uma filosofia moral que sempre desejou encontrar uma só resposta universal para todo dilema moral humano. Ora, essa resposta é o que podemos chamar responsabilidade. Nesse sentido, responsabilidade seria a capacidade dessa minha “essência universal compartilhada com todos” de saber, a princípio, como resolver meus dilemas morais. Se eu agisse de acordo com essa essência e com esses preceitos morais universais, eu seria responsável. Se eu negasse de alguma forma esses princípio, tentasse impor alguma coisa de singular, eu estaria sendo irresponsável.
Pois bem, com o início das ciências humanas, no século XIX, em especial a antropologia e a psicanálise, começamos a perceber que o sonho de uma moral universalmente válida era apenas isso: um sonho. Na verdade, nossos parâmetros morais mudam com frequência – não apenas de cultura para cultura, mas na própria história individual. O que decido hoje – com relação ao aborto, à traição do cônjuge, à eutanasia, à guerra… etc – pode não valer amanhã.
O que a psicanálise propõe, então, é que nossa responsabilidade seja descrita de uma forma mais singular, mais historicamente determinada. É claro que devemos ser responsáveis por nossas ações. É claro que devemos prestar contas ao laço social pelas decisões que tomamos. Mas, a partir do quê? Dessa essência universal que a religião acredita que temos? Não! Devemos nos responsabilizar a partir das relações que nos constituiram e sempre levando em consideração o inconsciente.
Ainda para ficar no exemplo do aborto. Suponham um caso fictício. O sujeito engravida diversas moças. Ele sugere a todas que abortem seus bebês. Ele pode simplesmente dizer: “bem, eu assumo a responsabilidade aqui: eu pago pelos abortos”. Um psicanalista não aceitaria bem essa resposta, questionaria se não há nessa repetição macabra alguma coisa da ordem do inconsciente. Algo do tipo: “você precisa provar para si mesmo que consegue ser superior às mulheres e por sua inveja delas – do poder de gerar um bebê – as obriga a abortar sempre”. Imaginem agora outro exemplo: a mulher engravidou aos 16. Bem, ela decidiu, com muita dor moral, pelo aborto. Ela leva para análise, durante anos, sua culpa por ter “matado” o seu bebê. Um psicanalista também questionaria a resposta pela via do inconsciente dizendo algo do tipo: “vc se sente culpada não apenas pelo aborto, mas por não ter assumido o lugar da mãe que você sempre quis”.
Observem: os dois casos fictícios mostram sujeitos que elaboram respostas singulares para dilemas morais semelhantes. Cada um articula sua posição frente ao laço social de uma forma específica. Nenhum dos dois – e quantos mais aparecessem na história – poderia convocar uma lei moral neutra frente à qual poderiam dizer: bem, era isso aqui que eu deveria fazer, era a única coisa a fazer para me responsabilizar pelo meu desejo. Nada disso! Os dois, na verdade, respondem aos seus desejos inconscientes de uma forma singular. Negando a culpa, aumentando a culpa, levando a responsabilidade pro outro… não importa…
Então, em resumo, a psicanálise não nega a responsabilidade. Ela a acentua na medida em que mostra que há mais razões para nossas decisões que supomos. Ela nos obriga a questionar nossas ações morais de tal forma a sempre levar em consideração o inconsciente. “Por que faço isso para além do que penso conscientemente?” ou ainda: “Penso saber exatamente como me comportar frente a esse dilema, mas será que tomando essa decisão não decido, em outro lugar, no inconsciente, por coisas que me escapam e que no entanto me determinam?”
Pra terminar, acabei de ver uma imagem no facebook que achei bem engraçada e é a resposta típica da histeria:
http://www.facebook.com/photo.php?fbid=1504983439646&set=a.1477827200757.56323.1686075100&type=1&theater
Ela diz: “I didn’t say it was your fault. I said I was going to blame you.” É apenas uma resposta possível: culpar o outro mesmo sabendo que o erro não era dele. Outras ainda possíveis: “Bem sei que não errei, mas mesmo assim me sinto responsável por isso”; “Sei que errei, por isso mesmo gosto de dar um jeitinho e fingir que nada aconteceu”…
Esses e outros temas no III CONPDL.
Participe!

Divulgue o III CONPDL

abril 17th, 2011

Divulgue essa imagem!

abril 17th, 2011


Jacques Derrida, em Politiques de l’amitié, lembra que responder a alguém é a mais originária, mais fundamental, modalidade de resposta. De fato, o dicionário traz responder como retrucar, reagir, revidar, retribuir. Todavia, diz Derrida, respondemos primeiro ao outro, à questão, à demanda, ao apelo, ao sinal, ao adeus. Aqui não se responde por si e em nome próprio, somos responsáveis apenas diante da questão, da demanda, da interpelação, da “instância” ou da “insistência” do outro. O autor continua:

Por outro lado, o nome próprio que estrutura o “responder-por-si” (répondre-de-soi) é ela mesma para o outro, seja aquele que o outro escolheu (por exemplo o nome que me foi dado ao nascimento, que eu nunca escolhi e me introduz no espaço da lei), seja o que, de qualquer forma, implica o outro no ato mesmo da apelação, na sua origem, sua finalidade, seu uso. O responder supõe sempre o outro na relação consigo, ele guarda o sentido desta “anterioridade” dissimétrica até na autonomia aparentemente mais interior e mais solitária do “quanto a si mesmo”, do foro interior e da consciência moral zelosa de sua independência – outra palavra para a liberdade. Essa anterioridade dissimétrica marca também a temporalização como estrutura da responsabilidade. (Derrida, 1994: 282).

A passagem de Derrida me parece importante para mostrar esses dois elementos que Jean Laplanche também irá fazer trabalhar quando propõe o deslocamento da responsabilidade para a resposta. Deslocamento duplo: do tempo e da dissimetria. Primeiro, a dissimetria para lembrar que a resposta é sempre originariamente diante do outro. Depois, do tempo, pois é só-depois, a posteriori, que o eu (o nome próprio, como diz Derrida) se apropria dessa resposta como se ela fosse formulada de forma independente e desligada do outro.

Laplanche, no seu texto “Responsabilité et réponse”, que norteia o III CONPDL, também lembra dos muitos sentidos da resposta. Deslocamentos, descolamentos entre o eu e o outro. A criança respondona: pensemos nela, talvez, como um primeiro descolamento/deslocamento dessa dissimetria originária. Ainda falta, claro, um longo caminho para um deslocamento talvez mais suave, o deslocamento para a amizade, para a palavra que pode circular mais fraterna e não apenas como reação ao outro.

Esse é mais um tema possível para o III CONPDL. Participe! Mande sua contribuição!

Fábio Belo

Referência

Derrida, J. Politiques de l’amitié. Paris: Galilée, 1994.

Nos primeiros parágrafos da Segunda Dissertação, de Genealogia da Moral, Nietzsche faz uma interessante correlação entre a promessa e a responsabilidade:

Para poder dispor de tal modo do futuro, o quanto não precisou o homem aprender a distinguir o acontecimento casual do necessário, a pensar de maneira causal, a ver e antecipar a coisa distante como sendo presente, a estabelecer com segurança o fim e os meios para o fim, a calcular contar, confiar – para isso, quanto não precisou antes tornar-se ele próprio confiável, constante, necessário, também para si, na sua própria representação, para poder enfim, como faz quem promete, responder por si como porvir! (Nietzsche, 2001 [1887]: 48)

Para Nietzsche, essa é “longa história da origem da responsabilidade”. Ser responsável implica transformar o sujeito “necessário, uniforme, igual entre iguais, constante e, portanto confiável”. O filósofo mostra como “ser responsável” tem várias raízes. Certamente, podemos ver nesse sujeito que se mantém o mesmo alguém interessante, alguém que pode se contrapor à moral dos costumes. Mas, o sujeito incapaz de esquecer uma dívida, em muitos sentidos, é também um sujeito incapaz de mudar. O sujeito responsável está muito próximo do devedor que pode sofrer na mão do credor.

A discussão, claro, é bastante complexa e se relaciona com outros aspectos da filosofia de Nietzsche. O que me interessa aqui é destacar, mais uma vez, que a noção de responsabilidade, na filosofia moral clássica, não leva em conta essa genealogia que Nietzsche, a seu modo, e a psicanálise, de outras formas, tentam fazer aparecer. Voltemos à Primeira Dissertação, numa famosa passagem:

(…) A fraqueza é mentirosamente mudada em mérito, não há dúvida (…)  e a impotência que não acerta contas é mudada em ‘bondade’; a baixeza medrosa, em ‘humildade’; a submissão àqueles que se odeia em ‘obediência’ (há alguém que dizem impor essa submissão – chamam-no Deus). O que há de inofensivo no fraco, a própria covardia na qual é pródigo, seu aguardar-na-porta, seu inevitável ter-de-esperar, recebe aqui o bom nome de ‘paciência’, chama-se também a virtude; o não-poder-vingar-se chama-se não-querer-vingar-se, talvez mesmo perdão (…). (Nietzsche, 2001 [1887]: 38)

Um pouco mais adiante, Nietzsche cita Tomás de Aquino, “suave como um cordeiro”: “os abençoados no reino dos céus verão as penas dos danados, para que sua beatitude lhes dê maior satisfação” (apud. Nietzsche, 2001 [1887]: 40). Essa frase deixa bem claro uma ideia que me parece muito próxima da psicanálise: o que parece apenas virtude é também, no inconsciente, desejo comprometido com uma satisfação sexual inaudita, infantil e perversa. Ser responsável muitas vezes é garantido pelo desejo inconsciente de ver os irresponsáveis “penando”.

O ponto é: aquele sujeito responsável – o plenamente capaz de fazer promessas – no auge de sua suposta autonomia, de sua “constância”, de sua “confiabilidade”… deve admitir que não é tão inteiro assim. Talvez, o sujeito da psicanálise não seja tanto o sujeito da promessa – tão requisitado pela religião, como sabemos (quem não se lembra de Dias Gomes e seu pagador de promessa?) – mas o sujeito de uma resposta ao outro que pode mudar pela via da elaboração. Nem tanto a ausência de um com-prometimento, mas o reconhecimento de que exigir garantias eternas do que se diz ou do que se deseja é perder, de forma radical, a possibilidade de novos arranjos junto ao outro.

Esse é mais um dos temas que pode ser explorado no III Congresso Nacional de Psicanálise, Direito e Literatura. Participe!

Fábio Belo, 05/03/11

O romance Uma questão pessoal, de Kenzaburo Oe, narra o terrível dilema de um pai que se depara com um filho com uma anomalia cerebral. Sem entrar em detalhes, podemos pensar que essa situação e muitas outras faz aparecer uma relação entre a biologia e a responsabilidade. Obviamente, a paternidade e a maternidade já faziam aparecer essa relação: devo ou não cuidar (me responsabilizar) por esse ser que “criei”? Essa questão, sabemos, não é naturalmente respondida. Não há instinto que dê conta dela. É preciso uma escolha sempre aqui. As coisas tomam talvez uma outra dimensão quando esse biológico exige ainda mais dos pais. Suponhamos o caso limite de uma criança que não “responderá” jamais aos apelos do outro. Vegeta apenas reduzido ao ponto mínimo de um olhar ou um meio-sorriso. Qual o peso da responsabilidade aqui? É maior? Menor? O que o Direito tem a nos dizer sobre isso? Existe a possibilidade jurídica de abandonarmos um bebê? Em quais condições? E o contrário: adotá-los, tomar o corpo biológico sobre o qual não temos responsabilidade, mas respondermos, no lugar do amor, pelo acolhimento? E a psicanálise: como pensar na dinâmica inconsciente dessas fantasias nos casos de filiação nos quais a biologia fala tão alto?

É sobre esse e outros temas que o III CONPDL tratará! Mande seu texto. Faça sua inscrição! Participe!

Se meu objeto de amor morresse…

fevereiro 27th, 2011

Muitas vezes, quando algumas pessoas querem terminar uma relação amorosa, mas não querem assumir a responsabilidade dessa experiência, devaneiam que seu objeto de amor poderia morrer, dessa forma, a livrariam do fardo e do mal-estar de dirigir a ele o fim do seu desejo.

Obviamente, uma fantasia desse tipo – a morte de nosso objeto de amor – possui infinitas interpretações. Quero pensar aqui apenas nesse contexto: desejo o fim da relação amorosa e não tenho coragem de endereçar ao outro isso que penso.

Para pensar no tema desse III CONPDL – responsabilidade e resposta – imagino as possíveis relações entre a morte, a reposta e o amor.

Desejar a morte do outro, mesmo estando bastante longe de qualquer tentativa de realizar essa fantasia na realidade, é uma resposta que parece tomar a via do infantil. Fazer desaparecer o outro é uma resposta sem restos. O ódio, no limite, é uma resposta que se quer pelo avesso: reposta para não responder.

A difícil tarefa de endereçar ao outro o mal-estar que ele nos produz sempre deixa restos. O outro interno – nossos desejos inconscientes – já é demasiadamente exigente.

Pensem também quando esse devaneio atormenta os enamorados: imaginamos a morte da pessoa amada e isso produz uma intensa angústia. Nesse caso, talvez o devaneio indica a impossibilidade de tomarmos a completa responsabilidade pelo outro. A todo momento ele nos escapa.

É bastante impressionante como usamos a morte do outro como um marcador moral. “Se ele morrer, nada sou”; “se ela morrer, poderei viver uma outra vida”; “o que seria de mim, sem ele(a)?”; “deverei continuar a amá-lo(a) depois de sua morte?”. O que me parece importante é lembrar, a partir da psicanálise, que a morte… nem sempre é o que parece.

Envie seu texto! Participe do III CONPDL!

Fábio Belo, 27/02/11

Medicalizar a moral

janeiro 18th, 2011

Medicalizar a moral – Michel Foucault explicou isso muito bem – é recusar que o mal é humano. Consequencia, do ponto de vista psicanalítico: a resposta ao pulsional deixa de ser pensada a partir de uma posição subjetiva e passa a ser desejado um tratamento medicamentoso ao “monstro”. Na coluna abaixo, João Coutinho nos dá um exemplo de um tema que será tratado no III Congresso Nacional de Psicanálise, Direito e Literatura: Responsabilidade e Resposta.

São Paulo, terça-feira, 18 de janeiro de 2011
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JOÃO PEREIRA COUTINHO

A doença do crime


De que forma conciliar a existência de um Deus onipotente com a presença do mal no mundo?


PORTUGAL PASSOU a semana em estado de choque. Não necessariamente por estar no limiar da bancarrota, preparando-se para receber o Fundo Monetário Internacional pela terceira vez em 37 anos de democracia. Mas pela morte de um conhecido jornalista luso barbaramente assassinado em Nova York. Eis os fatos: o jornalista, Carlos Castro, 65, era um “gadfly” social, que relatava nas páginas do diário “Correio da Manhã” (em que escrevo uma coluna política três vezes por semana) a vida dos famosos. Era também homossexual assumidíssimo e militantíssimo. E presença assídua na televisão portuguesa.
Depois do Natal, partiu para Nova York na companhia de um modelo, ou aspirante a modelo, de 21 anos. Paixão? Relação “profissional”?
A doutrina divide-se. Os familiares do rapaz juram publicamente a heterossexualidade dele.
Amigos do jornalista, pelo contrário, falam em paixão, namoro, quando muito relação “platônica”.
Os mais céticos dizem simplesmente que o rapaz pretendia aproveitar-se do jornalista para subir na carreira. Não saberemos a verdade.
Porque a única verdade que interessa é a morte. No passado dia 7 de janeiro, em hotel de luxo da Broadway, Carlos Castro foi assassinado no quarto do hotel.
“Assassinado” é termo demasiado brando: foi espancado, estrangulado, desfigurado e, finalmente, castrado. Com um vulgar saca-rolhas.
O principal suspeito acabaria preso e está hoje internado no hospital psiquiátrico de Bellevue, após confissão dos atos.
Aguarda julgamento. Prisão perpétua é uma hipótese.
O caso horrorizou os portugueses pelos contornos lúgubres do homicídio e, claro, pela fama do jornalista.
Mas aquilo que me horrorizou a mim não foi propriamente o homicídio. Nem sequer as reações ao homicídio na internet, onde a boçalidade anônima só comprovou a quantidade de homossexuais reprimidos que existem em Portugal.
O que me horrorizou foram os médicos que assaltaram as televisões e os jornais para “explicar” o sucedido.
“Explicar”, aqui, no sentido patológico do verbo: para todos eles, matar um ser humano com tal nível de brutalidade não é “normal”. É a manifestação de uma doença, ou de várias, que privaram o jovem da sua racionalidade.
Ponto de ordem: não excluo tal hipótese. E admito que a defesa legal do rapaz acabe por alegar insanidade momentânea, embora a estratégia nem sempre seja a mais aconselhada: li algures que, nos Estados Unidos, é residual o número de casos onde é alegada a insanidade; e é ainda mais reduzido o número de sentenças baseadas na insanidade do réu, que normalmente passa mais tempo nos calabouços de um manicômio do que na prisão propriamente dita.
Mas o meu problema não é legal; é moral. É, no fundo, observar a forma como as nossas sociedades foram “medicalizando” o mal, negando-lhe a sua dimensão humana, demasiado humana.
Sempre foi assim, eu sei. A existência do mal é o problema teológico “par excellence”: como conciliar a existência de um Deus onipotente e onisciente com a presença do mal no mundo?
Alguns brasileiros, confrontados com a inominável tragédia que se abateu sobre o país nestes dias, poderão mesmo repetir a frase de Voltaire da época do terremoto que dizimou Lisboa em 1755: “Como pode Deus permitir a morte de centenas, milhares de inocentes?”
Não tenho a pretensão de responder a tal questão. Duvido, aliás, que uma tal questão tenha resposta.
Prefiro lidar com tragédias menores, terrenas, domésticas. E perguntar, mais modestamente, por que motivo “medicalizamos” aquilo que nos é racionalmente aberrante?
Ou, dito de outra forma, por que razão nos recusamos a aceitar que o mal faz parte da nossa condição humana?
A resposta óbvia seria afirmar que a medicina, e em especial a neurologia e a psiquiatria, conquistaram novos e desconhecidos territórios: o assassino de ontem é o doente de hoje. E, quem sabe, será curado amanhã.
Talvez seja. Ou talvez não seja.
Mas no dia em que aceitarmos todos os crimes como meras manifestações de doença estaremos também a desculpar o criminoso e a subverter as categorias básicas da nossa vida comum.
Estaremos a apagar para sempre palavras como “liberdade”, “responsabilidade”, “culpa”, “certo” e “errado”.
Quem deseja mesmo viver num mundo assim?

Anais do II CONPDL

setembro 1st, 2010

É com satisfação que anunciamos: os anais do II CONPDL encontram-se disponíveis!

Boa leitura!

http://conpdl.com.br/conpdl2_anais.pdf

Sobre as duas pernas do Senhor Cogito
A perna esquerda é normal
dir-se-ia otimista
um pouco curta demais
perna de menino
na graça de seus músculos
e panturrilha bem torneada
a direita
– Senhor tende piedade –
é magra
com duas cicatrizes
uma ao longo do tendão de Aquiles
a outra oval
rosa- chá
lembrança vergonhosa de uma fuga
a esquerda está
prestes a saltar
perna de dança
que ama demais a vida
para se expor
a direita é
rígida de nobreza
e desafia o perigo
desse modo
sobre suas duas pernas
a esquerda que se pode comparar a Sancho Pança
e a direita
lembrando antes o cavaleiro errante
o senhor Cogito
avança
pelo mundo
mancando levemente

Zbigniew Herbert

[Leia formatado aqui: http://oglobo.globo.com/blogs/arquivos_upload/2010/04/110_935-risco.PDF]

             Será que teriam sido suficientes cem anos de psicanálise para que se possa deixar de intimidar-se em considerar a loucura apenas como um signo?

            O signo, sendo o que representa alguma coisa para alguém, implica a articulação em que um termo da relação define-se a partir do outro. Por isso os signos e, entre eles o da loucura, sofreram os destinos a que as diversas posturas subjetivas o condenaram, na medida em que elas determinam o “alguém” para o qual se representou “alguma coisa”.

            Por exemplo, os gregos antigos foram o “alguém” que denominou esta alguma coisa, que hoje alguns chamam de loucura, de “manias”. Assim, na visão de Homero, os homens não passariam de bonecos à mercê dos deuses. Esta situação, em que eles não teriam o domínio de si mesmos e por isto teriam seu destino conduzido pelas “moiras”, criava uma aparência de estarem fora de si, de estarem tomados, possuídos por uma força maior e exterior. A isso chamaram “mania”.

            Segundo Sócrates, este fato produziria quatro tipos de manifestações: um primeiro tipo de “mania”, a “mania profética”, que seria proveniente do deus Apolo e seria um tipo de loucura em que os deuses se comunicariam com os homens possuindo o corpo de um deles, para utilizá-lo como veículo da mensagem que queriam enviar. E como os deuses falam sempre a verdade, com este tipo de “mania”, que seria a do discurso oracular, produziu-se para este signo da loucura sua face de sabedoria, mística, que até hoje permanece vigente.

            Outra manifestação deste signo existente também entre os gregos, foi a da loucura chamada de “ritual ou dionisíaca”. Nela o louco se via conduzido ao êxtase através de danças e rituais orgiásticos, ao fim dos quais seria possuído por um daímon. Este tipo de mania, pelos efeitos catárticos que sua forma de expressão produzia, continha em si sua própria cura e provavelmente tenha sido a origem dos “carnavais” e de outras festas populares existentes até hoje. Não seria este signo da loucura também o responsável pela idéia de que seria necessário se liberar das forças “subterrâneas” existentes na natureza para não enlouquecer?

            Haveria ainda, no entender de Sócrates, a loucura amorosa produzida por Afrodite e também a loucura produzida pelas musas, a poética. Mas em qualquer uma destas manias, sempre o signo loucura denotava o caráter exterior deste saber que se expressava através do sujeito maníaco ora por oráculos, ora pelas manifestações do daímon, ora pela inspiração das musas. E esta manifestação do “outro”, que constituiria a fonte da mania, por ser detentora de uma “verdade” que se revelaria desta maneira, seria por isso considerada sagrada.

            Uma outra postura subjetiva, determinante do que poderia denotar uma nova significação da loucura, foi produzida pelo cristianismo. Esta outra posição subjetiva também radicalizou o caráter da exterioridade da loucura, atribuindo sua causa ao daimon cristianizado que é o demônio e que, além disso, a valorizou negativamente, significando-a como produto do pecado, responsabilizando moralmente o sujeito acometido por ela. Foi assim que fenômenos como os das epidemias de feitiçaria, ocorridos principalmente na Idade Média, transformaram-se na origem da Santa Inquisição, que foi o “tratamento” indicado pela Igreja para curar esta “doença” espiritual.

            O demônio, signo do mal, passou a ser sinônimo e justificativa dessa loucura que, através da possessão das feiticeiras, produziu um signo da loucura ampliado, ao qual, a partir daí, juntaram-se o caráter de “ruim e de mal”, embora ainda mantendo as características de “exterior” e “sagrado” que este signo já possuía anteriormente. Para mudar esta concepção não foi suficiente nem mesmo um Erasmo de Rotterdam, que tentou restituir a este signo, através do seu Elogio da loucura, seu aspecto de sabedoria.

            Mas foi somente ao ser anexado à razão que o signo da loucura sofreu sua mais radical modificação. Isto teria ocorrido, pelo menos miticamente, pouco antes da Revolução Francesa, por obra de Pinel que, ao separar o louco do criminoso, afastou deste signo seu aspecto de julgamento moral que constituía até então seu principal parâmetro.

            Apesar da importância deste fato em si mesmo, a principal conseqüência do ato de Pinel refletiu-se no resultado da leitura que o filósofo Hegel fez deste eminente psiquiatra. Em 1817, Hegel afirmaria, num artigo escrito para a Enciclopédia de Filosofia, que a alienação mental não seria a perda abstrata da razão, como até então se acreditava, mas segundo ele a loucura seria decorrente de uma contradição interior à própria razão.

            Ainda que usando o termo “alienado”, Hegel afirmou que não haveria uma “outra” razão ou mesmo uma desrazão que motivasse a loucura, como se acreditava antes e pretendeu demonstrar que esta provém unicamente de algo interno a ela própria. Com isto a loucura deixaria de ser necessariamente o oposto à razão ou sua ausência e a partir daí ela pôde ser pensada inerentemente à razão. Foi o que tornou possível a operação de pensá-la como dentro do sujeito e, portanto, possuidora de uma lógica própria.

            Hegel, com esta sua intervenção, tornou possível pensar um signo da loucura pertinente e necessário à dimensão humana, chegando ao ponto de afirmar que só seria humano quem tivesse a virtualidade da loucura, pois a razão humana só se realizaria através dela. O signo loucura, com isso, passou então de uma posição onde alguém (Sócrates, por exemplo) significava esta “alguma coisa” (mania) como caracterizado por ser além-da-razão, para uma outra posição onde “alguém” (Hegel, no caso) significava esta “alguma coisa” (loucura) como interior e necessária à razão.

            Passou-se desta maneira da desrazão para a doença mental e, decorrente desta nova postura subjetiva em relação à loucura, ela pôde ser capturada e pensada como pertinente a uma subjetividade particular. Com isso, ela deixou de ser uma loucura, universal, uma loucura de tudo e de todos, uma loucura dos deuses que criariam uma loucura do mundo, e passou a ser uma loucura de cada um que, levando em conta o particular deste sujeito, passou a ser apenas loucura dos homens.

            Modernamente, através da obra de Foucault, houve ainda uma outra tentativa de se estabelecer uma lógica própria da loucura, porém, retirando-a radicalmente do monólogo que, segundo este autor, a razão realizaria sobre ela.

Foucault, ao situar a loucura como não sendo natural ao homem e ao negar sua origem no uso da razão, propôs de maneira radical sua causa como cultural. Nesta outra tentativa de conotar o signo loucura, este não seria o relato de um fato da natureza, mas seria a constatação de um fato próprio às culturas que a definiram. Com isto, Foucault relativizou ainda mais a significação deste sigilo que, com esta modificação, só seria possível de ser definido.

            Deste modo, o mérito de Foucault vem da sua história da loucura que traça muito bem a questão da daemonia praticada na idade média/clássica onde vemos pessoas sendo excomungadas pela Igreja Católica por traz de interesses econômicos, principalmente pelos doentes acometidos da peste que assolava os países europeus à época. Temos celebridades como Blaise Pascal, Descartes, dentre outros nomes renomados, que para fugir da santa inquisição tiveram que mudar seus discursos ontológicos para não serem inquiridos na Bula Papal.

            Os doentes, sofriam perseguições pela Igreja Católica fantasiando (mascarando) as justificativas do demônio como forma de manifestação maligna tendo como solução injustificável a queima do corpo em praça pública para mostrar a população que o demônio havia sido expurgado do corpo daquela alma sofrida. Tais argumentos serviam de justificativa para que a Igreja se apossasse dos bens patrimoniais daquela alma penada como forma de fortalecer seu patrimônio em nome da fé. A Reforma Protestante aludiu muito bem a questão do interesse papal quando rompeu com a Igreja Católica mostrando que as Indulgências eram papeis que hoje do ponto de vista econômicos chamamos de precatórios, servindo apenas de valor histórico, não transladando nada de positivo sob o ponto de vista metafísico. Mais uma vez é importante render honras a Michel Foucault por ter transformado a questão da loucura em um problema genealógico.

Pedro Castilho, 24/04/2010

1) A Psicanálise é fundamentalmente um método terapêutico. Não há dúvida de que, ao transformar parte do que é inconsciente em consciente, ela transforma as pessoas. Se considerarmos a neurose como um estilo de vida, então é possível pensar no desenvolvimento de outro estilo, outra forma de se relacionar consigo mesmo e com os outros. Pensemos, a partir de Escher, nesse trabalho infinito do desenho de si mesmo.

Mãos que se desenham, de Escher

Mãos que se desenham, de Escher

1.1) Pode-se pensar, a partir da psicanálise, que esse desenho de si mesmo, nunca se faz sozinho, evidentemente, mas a metáfora de Escher me parece importante para mostrar que quando nos inventamos fazemos isso a partir de um ethos. Nunca é um processo, de fato, solitário. A estética da existência, pode-se dizer, é sempre solidária – tomando todos os cuidados com as muitas conotações desse termo, quero apenas apontar: é sempre algo que passa pelo outro.

2) Mas, é preciso estar atento ao desejo de “ser outro”, tão comum nas neuroses. Nossos romances familiares estão repletos de narcisismo. Uma família melhor, um pai mais amigo, uma mãe mais compreensiva: esses desejos implicam também no suposto ego que daí adviria. Isso está geralmente implícito: “se eu tivesse tido um pai mais compreensivo… hoje eu seria…”. Parte fundamental de uma análise é exatamente esclarecer os limites dessa “mudança” desejada, desse ser outro que aparece como ideal imaginário.

3) Na Conferência XXVII, sobre a transferência, Freud diz alguma coisa que merece muitíssima atenção: “Der geheilte Nervöse ist wirklich ein anderer Mensch geworden, im Grunde ist er aber natürlich derselbe geblieben, d. h. er ist so geworden, wie er bestenfalls unter den günstigsten Bedingungen hätte werden können.” (GW, XI, 452). Traduzindo: “o neurótico curado se transformou realmente em um outro homem, mas, no fundo, naturalmente, ele permaneceu ele mesmo, isto é, ele assim se tornou o que poderia ter se tornado no melhor dos casos, sob as melhores condições.” Freud conclui: “Aber das ist sehr viel.” Ou seja: “Mas, isso é muita coisa.” O que, qualquer um que já se submeteu a uma análise, há de concordar…

3.1) Mas, o que Freud quer dizer com isso? Como assim, o sujeito curado é aquele que se transformou… naquilo que ele seria “no melhor dos casos”… então, voltamos ao romance familiar? Mas, então, a Psicanálise usaria o método per via di levare, isto é, aquele método que vai “retirando” a pedra para que se revele a escultura escondida atrás do bloco de mármore? Mas, não seria melhor encará-la pelo método per via de porre, como na pintura, onde colocamos os elementos onde desejamos? Será mesmo que o sujeito “no seu melhor” está lá, guardado, sob os escombros de sua neurose? Não seria melhor pensar a Psicanálise como também uma técnica de subjetivação, de invenção de si mesmo, de uma prática ético-estética-existencial?

3.2) Mas, é preciso admitir que a frase de Freud tem algo de revelador: ele permaneceu o mesmo… “im Grunde”, no fundo… No fundamento, há algo, de fato, que não muda. Isso me parece… fundamental: por mais consciente que tenha se tornado o sujeito, por mais brilhantemente que saiba interpretar seus sonhos, por mais esperto que fique diante de seus atos falhos… ali, onde ele resplandece, paira, sempre, invisível, o que não cessa de se dar a ver, o inconsciente. Aí, nesse lugar, o sujeito permanece o mesmo. No fundo sem beira do inconsciente, no profundo do seu desejo, no indomável do pulsional, ele não muda e não há nada que a Psicanálise possa fazer quanto a isso… a não ser dotá-lo de um pouco mais de consciência – o sagaz contentamento, a gaia ciência – diante d’isso.

Céu e Água, Escher (1938)

Céu e Água, Escher (1938)

3.3) Mais uma vez, Escher. Pensemos nesse desenho Gestalt, “Céu e Água I”, de 1938. O sujeito se transformou, mas há algo que aparece, que o trabalho analítico – o trabalho sobre si mesmo – faz aparecer que já estava lá. Sabemos do risco que Freud corre aqui: um “naturalismo”, uma “natureza humana”… Mas, quero insistir no paradoxo: quando falamos da pulsão como esse fundo, estamos falando de algo puramente contingencial, que pode ter qualquer destino. É justamente isso que faz a exigência de trabalho analítico necessária.

Fábio Belo, 18/04/2010

Quando Foucault discute com Chomsky num famoso debate a possibidade de falarmos em “natureza humana”, ele salienta a impossibilidade de tal conceito ser forjado de forma neutra. Ele lembra que comunistas chineses, por exemplo, falavam de uma “natureza humana” diferente da burguesia. Nós bem sabemos onde isso leva… Quando Foucault propõe a noção de estética da existência, acredito que ele se aproxima bastante do pragmatismo e da crítica que se faz à ideia de essência ou natureza humana. Dizer que nossa existência pode ser vista como uma obra de arte é dizer que ela não está pronta e não regras apriorísticas dadas nem pela natureza, nem pelos deuses. Vocês podem assistir a um trecho desse famoso debate aqui:

Fábio Belo

Com uma sólida formação nacional e internacional, Márcio Alves da Fonseca dedicou toda a sua trajetória à interlocução entre o pensamento de Michel Foucault e as questões do âmbito do Direito, sendo atualmente o principal pesquisador brasileiro nesta importante senda teórica. Tal percurso frutificou particularmente no livro Michel Foucault e o Direito (Max Limonad, 2002), resultado de um Doutorado obtido na Universidade de Paris-XII sob a orientação de François Ewald (um dos principais discípulos de Foucault e a maior autoridade mundial nas relações entre Foucault e o Direito). Nesta obra, Fonseca dedica-se a mostrar a relevância das teses de Foucault para o campo jurídico, destacando particularmente um efeito destas: a possibilidade de pensar o direito “diferentemente”, o que resulta da extensa e profícua crítica de Foucault aos pressupostos das tradições filosófica, social e política do Ocidente. Em parceria com a professora Salma Tannus, Márcio Alves da Fonseca é atualmente tradutor dos últimos cursos ministrados por Foucault no Collège de France, dos quais a “Hermenêutica do Sujeito” (publicado em 2006) é apenas o primeiro volume.

Bioidentidades

abril 6th, 2010

O Prof. Benilton Bezerra vai encerrar o II CONPDL com um tema contemporâneo muito pertinente: a bioidentidade.

Como as novas tecnologias de manipulação corporal podem nos ajudar a construir uma nova estética da existência? Cirurgias plásticas, intervenções químicas de toda ordem (desde os remédios para dor até os controladores de humor) tudo isso entra em consideração nessa ética atravessada pela biologia.

Saiba mais sobre o tema assistindo à palestra do Prof. Benilton aqui:

http://www.cpflcultura.com.br/video/integra-novas-fronteiras-da-subjetivacao-benilton-bezerra-jr-sao-paulo

Não perca a oportunidade de vê-lo “ao vivo”… Faça a sua inscrição!

Gustavo Cerqueira Guimarães[1]

Casa Nova, Vera. Escópicas: notas a partir de um lugar. Aletria – revista de estudos de literatura. Belo Horizonte: Pós-Lit, 2003/2004, vol. 10/11, pp. 75-21. Disponível em:

http://www.letras.ufmg.br/poslit/08_publicacoes_pgs/Aletria%2010-11/Vera%20Casa%20Nova.pdf. Acesso em 5 de abril de 2010.

O Texto da Prof.ª de Semiótica da Fale/Ufmg, Vera Casa Nova, “Escópicas: notas a partir de um lugar”, difere-se em geral dos textos e/ou artigos acadêmicos, pois apresenta-se de uma forma fragmentária, aparentemente sem um elo contínuo, através de uma racionalidade não tão costumeira nessas estruturas, por vezes tão inteligíveis. O tempo para ler as seis páginas escritas pela autora obedece a outra ordem, podendo chegar a horas. Lendo-o como se lê Barthes, levantei a cabeça à procura de um lugar para melhor apartar o desamparo causado pelas inúmeras imagens evocadas. Haveria um lugar atrás do pensamento? Que tipo de leitor eu sou? Haveria mesmo uma possível nosografia para este ato tão solitário e silencioso? Para lembrar os leitores barthesianos: sou paranóico, fetichista, histérico ou obsessivo?

As imagens são inúmeras: Édipo, espelho, cegueira; Diego Velásquez e as dobras pós-Duchamp. Referências ao helenismo e aos cut-ups beats, de William Burroughs. É preciso atentar para todas as entradas possíveis indicadas pela tessitura. O resumo inicial indica a direção do pensamento. Anuncia – e com destreza realiza o anunciado – que o Texto se dará num movimento que vai da escopia ao háptico – ou do olhar ao sentido tátil -:

O texto apresenta fragmentos de leitura a partir de filósofos que se dedicaram ao estudo da imagem. Da figuração ou da representação no olhar da arte contemporânea o que resta é a sensação, a percepção, no movimento do olhar ou do tocar. A arte háptica nos convida a um outro pensar.

O Texto se inicia com a definição de escopia, que segundo a acepção significa visão da imagem, isto é, percepção interior da própria imagem interior, e não da coisa ou do referente. Ao apreender essa definição logo de início, eu a reli de diferentes formas por algumas vezes antes de prosseguir. O que seria essa percepção interior da própria imagem interior? O texto segue trazendo mais imagens caleidoscópicas ou mais ritmos estrangeiros? Estamos na simultaneidade do espaço-tempo. E toca em John Cage in concert e toca piano clássico através de perturbações clássicas: “quantos enganos, quantos logros não haveria aí?”, pergunta-se a respeito das teorias sobre a mimese, a cópia, a imitação, a representação centradas no olhar, no ver o objeto.

Toca, tateia para tentar saber, “conhecer, o objeto. Fenomenologia de Eros (Levinas). O contato com o objeto. Passar a mão na gravura, na foto, na escultura, no quadro. Texturas. Contato que vai além do contato onde os sentidos da arte se estendem”.

Seguem-se outras interrogativas: “Como um signo está ligado ao que significa?” “Estaríamos hoje revivendo um outro Quixote…?”

“Nesse jogo de espelhos, quem quebrará o espelho?”

“O que passa através dos olhos?                              Signos…  ?”

“Respeitar implica em não tocar? Qual sagrado não pode ser tocado? As instituições de toda ordem continuam a nos imprimir a marca do intocável?” “Neutralizaremos o tato, o toque?”

Vários outros rastros se dão a ver, são passos marcantes, difíceis, e ao mesmo tempo se torna instigante segui-los:

“Tangenciar objetos e recortar escrituras”.

“Da possibilidade ou da impossibilidade de o real poder ser dito ou desenhado, ou fotografado ou pintado ou…”.

“Palavra e imagem se exercitam em atravessamentos contínuos e descontínuos”.

“Uma figura se assemelha a uma coisa e isso bastará para que se deslize no jogo da imagem um enunciado evidente, repetido, óbvio”.

“É o corpo que grafa, escreve, desenha, esculpe,

pinta, grava, imprime, toca superfícies e anima-as”.

“Fechar os olhos e tocar pode ser mesmo desorientar, inquietar, dilacerar”.

“É preciso sair dos fantasmas da língua e uivar no celeiro do mundo!”, disse Vera em outros Desertos, pensando em Artaud. Vous avez besoin d’entendre une autre langue. É preciso atentar para as várias possibilidades de enfrentamento do Texto. É desejável atentar para à epígrafe de Merleau-Ponty à fotografia final – um escólio -, divulgando Os discos, escultura da artista plástica suíça Mira Schendel, realizados em letraset entre placas de acrílico. Essa obra, de fato, nos inquieta na medida em que não pode ser tocada, embora tenha sido feito para ser tocada. “São objetos que nos olham e que nos tocam; são objetos que nos tangem”; como por exemplo, a imagem fotográfica em p/b – uma cama vazia desfeita – “Sem título”, do cubano Felix Gonzalez-Torres, exposta em outdoors em Nova York e em São Paulo:

felix

Onde estão essas obras? Estão aqui, agora, ou na memória?

O Texto de Vera termina e o que temos nas mãos é o livro-tela e a vontade de experimentar outras sensações táteis, talvez um abraço – “O olhar toca. As mãos tocam. O corpo toca”. Por fim, em outro lugar, uma indicação, quase romântica, de como proceder diante das aporias:

Virar a página e

Como num salto

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Transbordar num imenso grito

E respirar poesia

Essa esquecida na estante da tua biblioteca. (Casa Nova, Desertos, p. 37)


[1] Doutorando em Literatura Comparada, Fale/Ufmg.

Aos Domadores

abril 6th, 2010

A Profa. Andrea Almeiada Campos, da PUC-PE e da DAMAS-PE, proferirá palestra no II CONPDL sobre a “Análise do Discurso Jurídico acerca da Infidelidade Conjugal Feminina em Interface com a Literatura”. Professora de Direito Civil e doutoranda em psicologia, Andrea é ainda poetisa e presenteia o nosso site com um poema seu:

Aos Domadores

Andrea Almeida Campos

Se queres domar a vida,

aprende primeiro

a domar esfinges.

Elas te rirão

do alto

do tempo

e do mistério

que serão

para ti

sempre

imperscrutáveis.

E sentirão pena

de toda

a prepotência

de que necessitas

para sobreviver

à brevidade

de tua existência.

Mas se quiseres

ser a vida

em tudo que sê-la

é belo e trágico,

lança abaixo

os chicotes

de todo o teu

desespero,

beija a fera

que parece

ser teu maior

pesadelo.

E nas esfinges

vão surgir,

das asas do leão,

mãos

que te enlaçarão

num abraço infinito.

In. Olhos sobre Tela. Recife: Companhia Editora de Pernambuco, 1999.